D.Pedro I e a princesa Leopoldina saem da tela.
É a deixa para irmos pra
sacada. Vamos? Nossa sacada é pequena com espaço para duas confortáveis
cadeiras, um vaso onde cultivo alguns temperos e uma churrasqueira (pouco
usada, na verdade). Enfim, é nela que ficamos a espiar o mundo. Ou o mundo que
nos espia?
Por mais incrível que pareça este
é o momento em que mais conversamos e rimos. Nas outras horas do dia cuidamos
de nossas tarefas individuais. Cada um com suas leituras, com suas aulas on line ( francês para um, italiano para outro). Cada um na sua. Para
manter o apartamento há divisões de trabalho: enquanto um cuida do almoço,
outro providencia a lavação de roupa; enquanto um limpa o chão, outro leva o
lixo; um arruma os quartos, outro limpa os banheiros.
Então, escolhemos o vinho da
noite: Villa Diamante, Malbec, 2017.
“Uma taça só para cada um, né? Não precisa mais!”
Passo seguinte: colocar o Spotfy em ação. Usando as palavras de meu
sobrinho “a vida fica bem melhor com trilha sonora!” As playlists mais tocadas aqui em casa alternam entre francesa e italiana.
As músicas vêm num vai-e-vem entre as clássicas e as mais atuais. De Piaf a
Zaz; de Pavarotti a Nek. Ci siamo
solamente noi .
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| Museu Rodin, Philadelphia |
Conversamos sobre lembranças e
família e as notícias do dia. Poderíamos estar mais esperançosos com a situação
se vivêssemos em um país sério, com um governo sério. Não é o caso. O Brasil está à deriva e não há
estratégias para a população enfrentar esta pandemia, infelizmente. Mas não priemos cânico já dizia o Chapolim
Colorado; para nos dar um pouco de tranquilidade o prefeito nos informa que os
dados de Florianópolis mostram uma situação mais controlada. Como não podemos
planejar um futuro um pouco mais distante, optamos por viver o momento. Não se
trata de adotar uma linha carpe diem, é
antes de tudo uma maneira de driblar a ansiedade, já que a pergunta diária tem
sido “até quando?”.
Non avere paura – me diz o cantor italiano. Como diz meu marido:
“nosso objetivo é sairmos vivos disso”.
O vizinho de porta passa lá embaixo e acena para nós: “tudo bem
aí?” . Respondemos que sim.
“Mais uma tacinha para cada um?”
“Sim!” A conversa tá boa e a lua crescente veio dar seu boa noite,
o céu está lindo e limpo. Contudo, não é um bom sinal. Nem sinal de chuva e
precisamos dela, muito. Bem que poderia cair um aguaceiro daqueles esta noite...
Quem diria... Eu, que não gosto de dias chuvosos nem de frio,
dizendo uma coisa dessas?!
vous êtes les ètoiles, nous
sommes l'univers
...
vous êtes un grain de sable,
nous sommes le desert
...
vous êtes l'horizon, et nous
sommes la mer
Ainda vou decorar estas letras, ah vou!
Um destes motoqueiros que carrega três pizzas nas costas acaba de passar
voando na lombada, agora sabemos por que as azeitonas chegam sempre fora do
lugar.
“Mais meia taça de vinho, vai!”
“Fechado!”
A parte adulta da família promove
encontros e jantas virtuais e, assim, aproveitamos os momentos de risadas e
descontração. Sempre desligamos com uma gostosa sensação de proximidade. Quanto
ao afastamento forçado dos netos, as conversas em vídeo parecem não satisfazer
mais e , para nossa tristeza, eles “estão crescendo sem nossos abraços”
(palavras do meu cunhado). “uno di questi giorni, andiamo via
“Última taça de vinho?”
“Pra que deixar este restinho, não é mesmo?”
A padaria em frente fecha às 20h30 toda noite, a academia ao lado
dela segue funcionando por mais uma
hora. O vizinho do bloco em frente fechou as cortinas e abaixou as persianas. A
garrafa de vinho se foi, está na hora de pensar na janta.
E o mês de maio vai saindo do
calendário.

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