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terça-feira, 19 de maio de 2020

Duas luas

Nunca jamais, em tempo algum imaginei viver algo parecido.
Alguém já ? Acredito que não.
Hoje penso que poderia ter feito um diário de confinamento, mas confesso que não acreditei que duraria tanto tempo e que, a esta altura, já estaríamos com nossa vida de volta à normalidade.
Não foi o que aconteceu...
Passados sessenta dias, encontro-me ainda confinada e tentando arranjar meios de distrair os pensamentos: ora com livros, ora com as séries do Netflix,  ora com exercícios físicos e mentais (as aulas de francês e sessões de Pilates seguem via web, um novo modelo ,mais uma adaptação). 
Como novidade dei meus primeiros passos nas pinceladas com aquarela, até que me saí bem! Minha filha resolveu me apresentar este desafio e deu-me de presente no dia das mães um kit de pintura.
Algumas saídas esporádicas  dão a sensação de liberdade. A maior parte das compras vêm sendo feitas pela internet (viva a tecnologia!) e os serviços de entrega  cumprem seu papel.  Há dias, porém, em que uma saída ou outra é providencial para ver o mundo além da minha sacada.
Por falar em sacada, instituímos aqui em casa uma espécie de ritual desde março: todas as noites pegamos uma garrafa de vinho ou cerveja ou espumante e sentamos em nossas cadeiras. O Spotify faz a trilha sonora variando entre playlists francesas, italianas , americanas... Hora de treinar o idioma; sim, porque além de ouvir , eu canto a música (ou tento). 
Ali acompanhamos a lua cheia, o movimento das nuvens (vai chover?), Vênus surgindo no céu e o movimento dos vizinhos que vão e vêm. Conversamos sobre temas variados, às vezes saudosistas -  as viagens feitas, filhos e netos( quanta saudade) - às vezes planos para o futuro. Como será? Comment ça va être? Viagens curtas? Para onde?
A contagem do tempo não se faz mais em dias, melhor adotar a contagem antiga que se baseia no número de luas cheias: já vimos duas desde o início da quarentena. Aliás, quarentena não é mais um nome apropriado.
Neste período tive noticias tristes e notícias alegres.
Soube de alguns nascimentos, e bebês sempre me trazem alegria; soube de novas gestações e mulheres grávidas  transmitem a certeza de que a vida segue. Acompanhei festas virtuais de aniversários e, então, a vida continua. Viva a vida! Vis la vie!  Mas houve notícia de que a vida foi interrompida, e aí a tristeza é inevitável; uma amiga muito querida se foi. Covid 19? Não. Feminicídio. Mais  revoltante ainda. Como levar apoio em tempos de pandemia? Não é permitido. Ficamos conformados com as mensagens virtuais, mas nada substitui aquele abraço em um momento difícil.
Duas luas já foram vistas no céu...

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