Século passado. No final dos anos
60 e meados dos anos 70 encontraremos
algumas histórias. Parece muito
distante no tempo, mas na verdade não está.
Nesta época, a pequena Maria Augusta (nome dado em homenagem ao avô)
ia deixando a infância e começava a descobrir a si mesma, mesmo sem ter muita
consciência disso... Maria Augusta
menina. Pernas compridas e finas. Braços igualmente magros e compridos. Muito
alta pra sua pouca idade; destoa dos colegas na escola. “Pau de virar tripa!” “Saracura!”
Inteligente, perspicaz e bastante tímida. Eram duas casas em um único terreno,
a casa da avó tinha entrada principal numa rua; a casa do tio oferecia acesso pela rua do outro lado da quadra. E, verdade
seja dita, os anos vividos por ali lhe deram garantias de uma infância normal,
onde podia brincar, estudar, aprender, crescer, enfim...
E entre as duas casas... um
quintal de muitas aventuras!
Muitas vezes, sentada nos degraus
da porta da cozinha ela cuida do movimento de um ou outro beija-flor que vem se alimentar na ramada de brinco-de-princesa bem à frente, ou arranca uma florzinha, coloca-a atrás da
orelha e sai saracoteando pelo quintal. Logo em seguida para perto de outras
flores e no jogo do “bem-me-quer, mal-me quer” acaba por dar fim a algumas margaridas.
Já o pé de hortênsia cercada de copos-de-leite no centro de um pequeno jardim
que fica perto da porta da cozinha na parte de cima do terreno, é só para
colher umas flores e colocar em vasos a pedido da avó. Mas ao redor deste
jardim há uma calçadinha por onde é possível dar voltas de bicicleta ou então
pular corda e ainda, pular tábua (como parecia grande o espaço!). Andando um
pouco para a direita vêem-se umas roseiras e um pé de jasmim com seu perfume
inconfundível. Pelo lado esquerdo, existe um quartinho pra guardar a lenha do
inverno e um butiazeiro (poucos sabem, mas ele serviu de cemitério para o
peixinho Cléo, guardado com muito cuidado numa caixinha de fósforo). O
gramado perto da figueira servia
para dar cambalhotas, perto dali também estavam as mimosas grinaldas. “Humm...
aquele figo lá em cima tá madurinho! Melhor pegá-lo antes que se esborrache no
chão.” E Maria Augusta decide subir na figueira...(com mais atenção que da
última vez em que não dava jeito de voltar ao chão e precisou de ajuda da mãe).
Um pé aqui, segura no galho ali, outro pé mais adiante, as folhas da figueira
lhe dão coceira, passa por baixo de outro galho, se estica para alcançar o figo
bem pretinho, suas mãos pegam o fruto com cuidado e o leite da figueira fica a
lhe incomodar um pouco...mas ali mesmo, no meio dos galhos abre o
figo, olha o vermelho do interior da fruta e saboreia o gostinho doce que só um
figo maduro comido assim tem e pensa como disfarçar quando o vô procurar pelo
figo maduro. “Melhor não estar por perto!”
Desce logo em seguida com muita
coceira, as mãos estão grudando.
Para percorrer o quintal de uma
ponta a outra há um caminhozinho coberto de pedra brita (a causa
de joelhos e cotovelos “ralados” a cada
tombo, o que pedia a aplicação dolorosa de Merthiolate. Ai! Ai! Arde e muito!!
Só resta parar o choro e assoprar, assoprar e assoprar...ufa!!).
Mais abaixo o quintal se estende
para chegar à casa dos tios... e, se o Zezé podia conversar com seu pé de
laranja-lima, ela pode fazer o mesmo com aquela macieira, alta como ela, de
onde não se arriscava a pegar maçãs, mas de cujo galho pendia um balanço feito
de corda. Abraça-se ao tronco e sussurra-lhe algumas confidências. “Hoje tive um sonho
esquisito! Senti medo, porque estava sozinha, corria, corria e não saía do
lugar...” “Amanhã vou sair com meu pai, depois te conto como foi...” Sobe no balanço.
Muito bom sentir o vento no rosto à medida
que impulsiona mais e mais. “Deve ser bom voar!”
E ainda havia muros circundando o terreno, brinca
de equilibrista em cima deles e... a cada escalada uma arte a caminho: mexe com
o cachorro do outro lado até ele ficar furioso, espanta os pombos do outro
quintal, joga pedra no gatinho branco que toma sol na janela, espia as vizinhas
tomando banho-de-sol. “Desce deste muro, menina! Vai cair!”
O jardim na rua de baixo é muito bem cuidado pela dona
dele: a tia que tem um nome meio afrancesado, e é dona de um lindo cabelo:
preto, cacheado, longo, que ela prende no alto da cabeça - estilo Amy Winehouse daquele tempo. E nos
finais de tarde do verão vinha a hora
adequada para ligar a mangueira e molhar
generosamente a grama verdinha , as roseiras
e as violetas, e outras flores.
Que delícia aquele cheirinho de terra molhada! Maria Augusta gosta de estar
circulando por ali nestes momentos, faz perguntinhas “por que molhar agora?” Verdade que estas florzinhas abrem e fecham? -
pergunta apontando para as onze-horas. E ajuda a tia (ou atrapalha?). “Olhe só,
o botão de rosa abriu um pouco mais!” Além disso, a casa da tia atraía suas
visitas por ter um gatinho cinza, o Mitsi, que tinha o costume de ficar embaixo do fogão
a lenha; e em outra temporada , um cachorro, o Rex.
E as crianças da tia!! Os primos
de quem ela gosta de cuidar. Seu jeito de professora começava a se manifestar,
tem paciência a ponto de repetir um mesmo movimento, rodando sobre si mesma várias vezes e fazer rodar a saia, só para
ouvir a risada gostosa do bebê que se diverte com isso. Adora ficar por perto
na hora de trocar as fraldas, sentir o perfume do talco ou na hora do banho, tudo com cheirinho de bebê Johnson!! Nada de Natura ou Turma da Mônica!!
Dois degraus dividem a parte de cima e a de baixo do quintal,
uma parreira à esquerda e uma
horta à direita que fica aos cuidados daquela mesma tia sempre risonha e alegre,
aquela das roseiras e violetas. Desta horta, Maria
Augusta lembra perfeitamente do cheiro e da textura aveludada de hortelã, da
observação diária e cuidados necessários com os moranguinhos até surgir um
vermelhinho aqui, outro ali, escondido debaixo das folhas. Havia as costumeiras cebolinhas, que faziam bolhas
de sabão (mas para este fim precisavam ser colhidas na clandestinidade), a salsinha delicada para o tempero do arroz, a malva que serviu de chá para bochecho
quando extraiu um dente. Argh!!E o
perfume da manjerona? Ah! isto é parte de suas memórias de tal modo que até
hoje curte pegar um raminho de manjerona e ficar chegando perto do nariz
...delicioso perfume da infância! Estas memórias fazem com que a ida ao mercado
público torne-se pura diversão para uma
Maria Augusta adulta: trata-se de um
paraíso de aromas, texturas e sabores. Olfato, tato e memórias
misturados numa viagem no tempo. Gostoso!
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