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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O QUINTAL



 Século passado. No final dos anos 60 e meados dos anos 70 encontraremos  algumas  histórias. Parece muito distante no tempo, mas na verdade não está.
Nesta época, a pequena  Maria Augusta (nome dado em homenagem ao avô) ia deixando a infância e começava a descobrir a si mesma, mesmo sem ter muita consciência disso...  Maria Augusta menina. Pernas compridas e finas. Braços igualmente magros e compridos. Muito alta pra sua pouca idade; destoa dos colegas na escola. “Pau de virar tripa!” “Saracura!” Inteligente, perspicaz e bastante tímida. Eram duas casas em um único terreno, a casa da avó tinha entrada principal numa rua; a casa do tio  oferecia acesso  pela rua do outro lado da quadra. E, verdade seja dita, os  anos vividos por ali  lhe deram garantias de uma infância normal, onde podia brincar, estudar, aprender, crescer, enfim...
E entre as duas casas... um quintal de muitas aventuras!
Muitas vezes, sentada nos degraus da porta da cozinha ela cuida do movimento de um ou outro beija-flor  que vem se alimentar na  ramada de brinco-de-princesa bem à frente,  ou arranca uma florzinha, coloca-a atrás da orelha e sai saracoteando pelo quintal. Logo em seguida para perto de outras flores e no jogo do “bem-me-quer, mal-me quer” acaba por dar fim a algumas margaridas. Já o pé de hortênsia cercada de copos-de-leite no centro de um pequeno jardim que fica perto da porta da cozinha na parte de cima do terreno, é só para colher umas flores e colocar em vasos a pedido da avó. Mas ao redor deste jardim há uma calçadinha por onde é possível dar voltas de bicicleta ou então pular corda e ainda, pular tábua (como parecia grande o espaço!). Andando um pouco para a direita vêem-se umas roseiras e um pé de jasmim com seu perfume inconfundível. Pelo lado esquerdo, existe um quartinho pra guardar a lenha do inverno e um butiazeiro (poucos sabem, mas ele serviu de cemitério para o peixinho Cléo, guardado com muito cuidado numa caixinha de fósforo).   O  gramado perto da figueira servia  para dar cambalhotas, perto dali também estavam as mimosas grinaldas. “Humm... aquele figo lá em cima tá madurinho! Melhor pegá-lo antes que se esborrache no chão.” E Maria Augusta decide subir na figueira...(com mais atenção que da última vez em que não dava jeito de voltar ao chão e precisou de ajuda da mãe). Um pé aqui, segura no galho ali, outro pé mais adiante, as folhas da figueira lhe dão coceira, passa por baixo de outro galho, se estica para alcançar o figo bem pretinho, suas mãos pegam o fruto com cuidado e o leite da figueira fica a lhe incomodar um pouco...mas ali mesmo, no meio dos galhos  abre  o figo, olha o vermelho do interior da fruta e saboreia o gostinho doce que só um figo maduro comido assim tem e pensa como disfarçar quando o vô procurar pelo figo maduro. “Melhor não estar por perto!”  Desce  logo em seguida com muita coceira, as mãos estão grudando.
Para percorrer o quintal de uma ponta a outra há  um  caminhozinho coberto de pedra brita (a causa de  joelhos e cotovelos “ralados” a cada tombo, o que pedia a aplicação dolorosa de Merthiolate. Ai! Ai! Arde e muito!! Só resta parar o choro e assoprar, assoprar e assoprar...ufa!!). 
Mais abaixo o quintal se estende para chegar à casa dos tios... e, se o Zezé podia conversar com seu pé de laranja-lima, ela pode fazer o mesmo com aquela macieira, alta como ela, de onde não se arriscava a pegar maçãs, mas de cujo galho pendia um balanço feito de corda. Abraça-se ao tronco e sussurra-lhe  algumas confidências. “Hoje tive um sonho esquisito! Senti medo, porque estava sozinha, corria, corria e não saía do lugar...” “Amanhã vou sair com meu pai, depois te conto como foi...” Sobe no balanço. Muito  bom sentir o vento no rosto à medida que impulsiona  mais e mais.  “Deve ser bom voar!”
 E ainda havia muros circundando o terreno, brinca de equilibrista em cima deles e... a cada escalada uma arte a caminho: mexe com o cachorro do outro lado até ele ficar furioso, espanta os pombos do outro quintal, joga pedra no gatinho branco que toma sol na janela, espia as vizinhas tomando banho-de-sol. “Desce deste muro, menina! Vai cair!”
O jardim na  rua de baixo é muito bem cuidado pela dona dele: a tia que tem um nome meio afrancesado, e é dona de um lindo  cabelo:  preto, cacheado, longo, que ela prende no alto da cabeça  - estilo Amy Winehouse daquele tempo.   E nos finais de tarde do verão vinha a  hora adequada para  ligar a mangueira e molhar generosamente a grama verdinha , as roseiras  e as violetas,  e outras flores. Que delícia aquele cheirinho de terra molhada! Maria Augusta gosta de estar circulando por ali nestes momentos, faz perguntinhas “por que molhar agora?”  Verdade que estas florzinhas abrem e fecham? - pergunta apontando para as onze-horas. E ajuda a tia (ou atrapalha?). “Olhe só, o botão de rosa abriu um pouco mais!” Além disso, a casa da tia atraía suas visitas por ter um gatinho cinza, o Mitsi,  que tinha o costume de ficar embaixo do fogão a lenha; e em outra temporada , um cachorro, o Rex.
E as crianças da tia!! Os primos de quem ela gosta de cuidar. Seu jeito de professora começava a se manifestar, tem paciência a ponto de repetir um mesmo movimento, rodando sobre si mesma  várias vezes e fazer rodar a saia, só para ouvir a risada gostosa do bebê que se diverte com isso. Adora ficar por perto na hora de trocar as fraldas, sentir o perfume do talco   ou na hora do banho, tudo com  cheirinho de bebê Johnson!! Nada de Natura  ou Turma da Mônica!!
Dois degraus  dividem a parte de cima e a de baixo  do quintal,  uma parreira  à esquerda e uma horta à direita que fica aos cuidados daquela mesma tia sempre risonha e alegre, aquela   das roseiras e violetas. Desta horta, Maria Augusta lembra perfeitamente do cheiro e da textura aveludada de hortelã, da observação diária e cuidados necessários com os moranguinhos até surgir um vermelhinho aqui, outro ali, escondido debaixo das folhas. Havia  as costumeiras cebolinhas, que faziam bolhas de sabão (mas para este fim precisavam ser colhidas na clandestinidade),   a salsinha delicada para o tempero do arroz,  a malva que serviu de chá para bochecho quando  extraiu um dente. Argh!!E o perfume da manjerona? Ah! isto é parte de suas memórias de tal modo que até hoje curte pegar um raminho de manjerona e ficar chegando perto do nariz ...delicioso perfume da infância! Estas memórias fazem com que a ida ao mercado público torne-se pura  diversão para uma Maria Augusta adulta: trata-se de um  paraíso de aromas, texturas e sabores. Olfato, tato e memórias misturados numa viagem no tempo. Gostoso!

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