Seis horas da tarde. Quem está em
casa é chamado a participar da despedida da “capelinha”. As tarefas domésticas
dão uma pausa. Uma das tias puxa a oração. Maria Augusta é ouvinte, fica mais pro fundo do grupo que
faz a reza, do jeito que sabe, “Santa Maria, cheia de graça, ops, mãe de Deus,
rogai por nós”. O irmão fica por ali brincando com os dedos da mão, distraído.
A irmã impaciente fica a lhe puxar o rabo-de-cavalo. Enquanto isso o joelho
magro reclama da posição. Risadinhas
abafadas são ouvidas. “Pst! Fiquem quietos!”
O ritual segue as orações de um livrinho. Quem está no
comando, vai virando as páginas e lendo
em voz alta as orações. As crianças e quem mais estiver na sala só falam no
momento exato de responder em coro algo como “Amém!” enquanto a mãe de Jesus olha
para elas e parece estar dizendo: estou cuidando de vocês! O local é a sala da
frente, a imagem da santa dentro de um oratório protegida por vidro, está no lugar que lhe é reservado todo mês, em cima do balcão. Além da vela
acesa, um vasinho de flor como oferenda.
Tão logo mostrou-se capaz, a avó
lhe incumbiu a tarefa de acender a vela, pegar o livrinho e fazer a leitura.
Incrível, como a sensação do joelho doendo durante a reza já não tem tanta
relevância, em suas lembranças estão apenas a energia do momento com a presença
da avó que lhe dizia como proceder - nas primeiras vezes – e o cheiro de vela
queimando. “Ave Maria, cheia de graça...(será que vou errar?)... Uma olhadinha
para o lado e ouve a voz da avó se juntando
à dela “o Senhor é convosco!” Assim a Ave Maria prossegue e a imagem à sua
frente só falta dar uma piscadinha de
aprovação.
Uns minutos intermináveis mais
tarde, a reza tem seu fim. “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
amém” a imagem deve seguir sua
peregrinação. Veio da casa da vizinha da direita, vai para a vizinha da
esquerda, seguindo a lista que vem pregada em uma das portinhas da imagem. Sr. Armindo, Sr. Mário, Sr. Lauro. Quem leva? Maria Augusta gosta de fazer isso. Havia a curiosidade
em saber o que tinha naquela gavetinha
“será que alguém deixou um dinheiro ali? Fizeram uma contribuição? Ou está
sempre vazia? Às vezes se pode ver a ponta de uma cédula e sacudindo pode-se
ouvir as moedinhas lá dentro.Que vontade de abrir!” A imagem vai meio se sacudindo dentro da caixa em que
está guardada, é grande para o seu tamanho, mas ela vai adiante. Ôpa! Escada
encerada!! Uma cambaleada no meio da escada e... ufa! O corrimão a salva do
vexame de derrubar a imagem sagrada de Nossa Senhora. “Será que alguém viu?” As
pernas finas continuam a descer
as escadas de casa, ainda tem que abrir
a porta da rua, caminhar uns poucos metros até a casa da irmã da avó, subir uns
degraus que dão acesso à casa vizinha e bater à porta anunciando que
a”santinha” chegou. Faz o percurso da volta saltitando pela rua. Cumpriu sua
missão.

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