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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A reza



Seis horas da tarde. Quem está em casa é chamado a participar da despedida da “capelinha”. As tarefas domésticas dão uma pausa. Uma das tias puxa a oração. Maria Augusta  é ouvinte, fica mais pro fundo do grupo que faz a reza, do jeito que sabe, “Santa Maria, cheia de graça, ops, mãe de Deus, rogai por nós”. O irmão fica por ali brincando com os dedos da mão, distraído. A irmã impaciente fica a lhe puxar o rabo-de-cavalo. Enquanto isso o joelho magro  reclama da posição. Risadinhas abafadas são ouvidas. “Pst! Fiquem quietos!”

O ritual  segue as orações de um livrinho. Quem está no comando, vai  virando as páginas e lendo em voz alta as orações. As crianças e quem mais estiver na sala só falam no momento exato de responder em coro algo como “Amém!” enquanto a mãe de Jesus olha para elas e parece estar dizendo: estou cuidando de vocês! O local é a sala da frente, a imagem da santa dentro de um oratório protegida por vidro, está no  lugar que lhe é reservado  todo mês, em cima do balcão. Além da vela acesa, um vasinho de flor como oferenda.

Tão logo mostrou-se capaz, a avó lhe incumbiu a tarefa de acender a vela, pegar o livrinho e fazer a leitura. Incrível, como a sensação do joelho doendo durante a reza já não tem tanta relevância, em suas lembranças estão apenas a energia do momento com a presença da avó que lhe dizia como proceder - nas primeiras vezes – e o cheiro de vela queimando. “Ave Maria, cheia de graça...(será que vou errar?)... Uma olhadinha para o lado e ouve a  voz da avó se juntando à dela “o Senhor é convosco!” Assim a Ave Maria prossegue e a imagem à sua frente só  falta dar uma piscadinha de aprovação.

Uns minutos intermináveis mais tarde, a reza tem seu fim. “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém”  a imagem deve seguir sua peregrinação. Veio da casa da vizinha da direita, vai para a vizinha da esquerda, seguindo a lista que vem pregada em uma das portinhas da imagem. Sr. Armindo, Sr. Mário, Sr. Lauro. Quem leva? Maria Augusta gosta de fazer isso. Havia a curiosidade em saber o que  tinha naquela gavetinha “será que alguém deixou um dinheiro ali? Fizeram uma contribuição? Ou está sempre vazia? Às vezes se pode ver a ponta de uma cédula e sacudindo pode-se ouvir as moedinhas lá dentro.Que vontade de abrir!” A imagem  vai meio se sacudindo dentro da caixa em que está guardada, é grande para o seu tamanho, mas ela vai adiante. Ôpa! Escada encerada!! Uma cambaleada no meio da escada e... ufa! O corrimão a salva do vexame de derrubar a imagem sagrada de Nossa Senhora. “Será que alguém viu?” As pernas finas  continuam a   descer as escadas de casa, ainda tem que  abrir a porta da rua, caminhar uns poucos metros até a casa da irmã da avó, subir uns degraus que dão acesso à casa vizinha e bater à porta anunciando que a”santinha” chegou. Faz o percurso da volta saltitando pela rua. Cumpriu sua missão.

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