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domingo, 16 de outubro de 2011

Entre papéis, notícias e tinta



 E-mail. Twitter. Torpedinhos via celular. Mensagens instantâneas.  Conversas através de vídeo. Todo o mundo conectado, o tempo todo. A comunicação não para.
Quem vive esta modernidade desde que nasceu, nem sabe o que é escrever para alguém e esperar uma semana, ou duas... para receber a resposta... Quem tem a idade da Maria Augusta acompanha essa tecnologia, mas já viveu outra realidade.

Havia o bloco de cartas. A caneta tinteiro (instrumento que fazia exercitar a paciência do escritor, qualquer descuido ou pressa resultava em borrão!!) Maria Augusta dedicava-se a escrever cartas desde que aprendera no colégio a usar a tão sonhada caneta tinteiro e lhe fora permitido usar o bloco de cartas. Seguia todo um ritual para postar uma carta: sentava-se à mesa da sala da frente – local onde realizava as tarefas escolares diariamente – e escrevia seu rascunho enquanto a vó fazia  o crochê e ouvia a Rádio Aparecida. Quinze horas marcava o relógio do corredor. "Espero que esta a encontre bem de saúde. Por aqui estamos todos bem."
Depois  passava a limpo com todo cuidado naquele papelzinho fino, tão delicado, que no final receberia alguns assoprões para secar a tinta e, então, seria dobrado meticulosamente em três partes antes de ser posto dentro do envelope, aquele de bordas em verde e amarelo, indicando remetente brasileiro. Para subscritar o envelope usava régua e traçava algumas linhas a lápis (bem fraquinho, para não marcar o papel) e assim tinha certeza de que o endereço não ia ficar todo torto. Dava uma lambida na cola do envelope para fechá-lo (argh!). Tempos depois, já era possível pular esta parte e fechar  o envelope e colar o selo com a goma oferecida nos balcões do Correio. Era super divertido, ir ao correio, comprar o selo, e enviar a cartinha ao seu destinatário. Difícil era a espera pela resposta!
 
Mas gostoso mesmo era a ida ao correio acompanhada do avô. “Vamos pegar a correspondência na caixa postal?” – ele dizia. Na saída passavam pelo cabideiro do corredor e ele pegava seu chapéu e guarda-chuva (prevenido!). Desciam as escadas, fechavam a porta e saíam pela rua sem pressa. Não iam em silêncio. O vô gostava de dar conselhos e acompanhar a vida escolar de Maria Augusta. “Como estão as notas no colégio? Está tudo legal, vô. Tirei um dez em matemática e um dez em inglês. Ótimo! Mas é  mais importante   falar bem a nossa língua, que é uma língua muito rica! Sabe o que é legal? Algo que está dentro da lei.Não aprovo estas gírias.” Passavam as ruas com cuidado, ele a orientava para olhar os dois lados. Encontram  algum conhecido... “Bom dia! Como vai o senhor?” A Rua Correia Pinto vai ficando para trás. Chegam à esquina do Banco Inco. “E o comportamento? Como está? Não adianta tirar dez e não ser disciplinada. É preciso respeitar os professores! Claro, vô, sou uma boa aluna nisso também. Eles deviam dar nota para o comportamento dos alunos, não é só a matéria que interessa!” Alguém pode pensar que o diálogo entre eles desagradava a menina por conter tantas recomendações, mas a verdade é  que  o avô não lhe falava em tom de repreensão; era aquele jeitinho dele, calmo, explicando as coisas, sem alterar a voz. Soava como um cuidado, ele se importa com ela, ele quer o seu bem, o vô lhe mostra o que é certo e ela gosta disso.

Atravessavam a Praça João Costa e se aproximavam da agência dos Correios onde havia uma caixa postal esperando para ser aberta pela chavezinha que o avô trazia consigo. Momento importante: ele dava-lhe a chave para que ela abrisse a portinha e retirasse as correspondências. Pronto! Fechava a caixa, o avô tornava a guardar a chave no bolso do seu casaco e eles seguiam o caminho de volta para casa. Ansiedade somada à curiosidade. O que estará escrito na carta que chegou de tão longe? Ela já sabia de quem se tratava só de ver  o envelope com bordas azuis e vermelhas, indicativo de correspondência com remetente estrangeiro: Ordem do Carmo, quarto 17, 1º andar, Porto – Portugal. Acontece que a irmã do avô e ela trocavam correspondência mesmo sem uma nunca ter visto a outra. Bondade e paciência  da parte da velhinha portuguesa, dar atenção a uma menina que nem conhece, mas sabe que a rapariga a lhe escrever é neta do seu irmão!!



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