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sábado, 27 de junho de 2020

Verões passados


Maria Augusta conheceu o mar e seus encantos aos sete anos de idade. Depois de uma tenebrosa viagem de ônibus via BR470 não asfaltada durante umas seis horas, em meio à poeira e enjoos chegou a Balneário Camboriú, onde iria passar o verão na casa dos tios: Wilma e Heraldo. Não ia só: mãe e irmãos iam juntos. Parece que fazia parte de um plano no qual a ideia era dar uma folga para a casa dos avós, tão movimentada no período escolar. Os tios sempre queridos os receberam verão após verão, durante uma década. Gente, que paciência, a deles! O apartamento da Avenida Central ficava lotado!


A primeira vez que caminhou na praia, Maria Augusta ficou tonta com o movimento das ondas. O mar, porém, logo causou nela uma paixão que dura até hoje.

Rotina da manhã: colocar trajes de banho logo cedo, tomar café (as crianças tomavam Ovomaltine, uma novidade que conheceram na casa da tia), pegar as cadeiras de praia e guarda-sol e caminhar até a praia. Alguns metros na maior animação. Crianças iam primeiro, por volta das nove horas, os adultos chegavam um pouco mais tarde. Tinham a tarefa de escolher sempre o mesmo lugar na areia. Fácil localização para os que vinham depois. Foi a partir dessas temporadas que dominou a arte de cravar o guarda-sol na areia e a simbologia das bandeiras dos postos de salva-vidas: verde (mar tranquilo, poderiam brincar despreocupados), amarela (mar agitado, com repuxo, teriam que ser mais cautelosos) e vermelha (mar bravo, melhor não entrar). Via de regra, a Praia Central era amistosa e não oferecia perigo.

A manhã passava alegremente entre banhos de mar, pausa para lanche digno de praia: uma espiga de milho verde (Maria Augusta guarda esse sabor até hoje) e um picolé para cada um. Mais brincadeiras nas ondas até à exaustão quando chega a hora de ir para casa. Aqueles poucos metros para perfazer o caminho de volta ofereciam maior dificuldade: o asfalto da Avenida Atlântica e a calçada a ser percorrida queimam os pés que vão descalços correndo e pulando aqui e ali.

Em casa, outra rotina se repetia: colocar as cadeiras de praia (eram aquelas cadeiras com armação de madeira e assento de lona) para secar no sol e tomar banho para então almoçar.

 Sentavam todos à mesa, os tios e três primos, a mãe, seus irmãos e ela. Mesa grande e cheia de gente. Muitas conversas e a comida sempre saborosa. Maria Augusta sempre faminta após os banhos de mar achava tudo bom; e havia os sucos deliciosos, feitos com frutas frescas, o de maracujá era o seu preferido.

Após o almoço seguia-se um período de descanso até o café da tarde. Muitas vezes Maria Augusta ia até a padaria acompanhando a moça que trabalhava lá. Era um momento de descoberta pelas ruas; e retornava com pães deliciosos e outras guloseimas.

Para a parte da tarde o destino era a chácara do tio, em Camboriú. Mais uma oportunidade de gastar energia, correr, explorar e andar a cavalo. Iam somente o tio e as crianças, era a contribuição dele para entreter a gurizada.

E à noite, faziam caminhadas pelo calçadão para aguardar o frescor da noite. Eram passeios divertidos, sem pressa, olhando o movimento dos bares e restaurantes, bisbilhotando o artesanato dos hippies que expunham brincos, pulseiras, colares de todos os tipos pelo chão. A cidade toda parecia ter a mesma ideia e o calçadão ficava bastante movimentado.  

A primeira semana invariavelmente trazia as queimaduras. Eram tempos em que não havia protetor solar; somente bronzeadores que eram destinados aos adultos. No máximo, uma camadinha de pomada nos lábios e nariz, que a água do mar logo tirava. Criança não sai da água.  Aquele cheirinho de Noskote também ficou na memória de Maria Augusta. Desacostumada ao sol, a pele branca ficava bem queimada: nariz, face, ombros e costas adquiriam aquela cor de camarão no vapor. Doía muito e o simples contato com a roupa provocava gritos de “ai, ai, ai”! A solução mais usada nesses casos era uma loção rosa que secava na pele e deixava com aparência esquisita, mas tinha um cheirinho bom: chamava-se Caladryl. O tio sempre judiava das crianças chegando de surpresa e colocando suas mãos nos ombros arrancava outros tantos “Ai! Ai! Ai!”  e dava risada. Via de regra, a pele descascava todinha e as crianças pareciam cobrinhas trocando de pele. Depois dessa curtida (literalmente) os corpos acostumavam-se ao sol e ao final da temporada, Maria Augusta e seus irmãos voltavam para casa bronzeadíssimos e felizes.


Um comentário:

  1. Gelsa querida, como você descreveu bem às nossas férias no apto.da tia Wilma,que boas recordações temos desse tempo gostoso tão tranquilo e alegre! !
    Obrigada Tia Wilma querida!

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