
No número 340 da rua Correia Pinto, o domingo era assim...
Dia de levantar um pouco mais tarde, de usar a "roupa de domingo", de ir à missa... mas a parte interessante estava nos preparativos para o almoço, havia especial atividade na cozinha.
Cardápio reservado para os domingos: massa caseira com molho de frango e maionese, acompanhada de sobremesa especial feita à base de gelatina, creme e suspiro (pra quem não conhece por este nome: claras em neve batidas com açúcar, em algumas ocasiões ganhava um toque especial - na cor e no sabor - ao se derramar
açúcar queimado na mistura). Delicioso!!
O início dos trabalhos matinais dependia de acender o fogo no fogão a lenha (que calorzinho bom!) e preparar o café da manhã para todos que aos poucos iam surgindo, uns mais preguiçosos que outros... Após o café, a cozinha virava um palco de intensa atividade.
Enquanto a louça ia sendo lavada, começavam os preparativos para o almoço. E a vó dava início ao preparo da massa para o macarrão (ou lasanha, algumas vezes). Eu gostava de ficar ao lado dela, olhando o jeito de misturar os ingredientes e formar a massa, pedindo pra sovar um pouco, acho até que importunava mais do que ajudava. Mas uma das muitas qualidades da minha vó com certeza era a paciência! Creio que, além do nome, também herdei isso dela.
E a parte mais divertida ainda era a hora de montar a máquina de macarrão na ponta da mesa e colocá-la em ação!! Esticar a massa, deixá-la bem fininha, e eu - ali - ajudando a espalhar as tiras de massas sobre a mesa com um pouco de farinha para que secassem. "Que tipo de macarrão vai ser hoje, vó? Mais fininho ou mais grosso?" No momento certo (mais diversão!) , pegávamos as tiras de macarrão e passávamos pela máquina para serem cortadas. Eu podia ficar encarregada de segurar a massa que ia saindo da máquina e ir colocando o macarrão todo cortadinho em cima da mesa.
Algum tempo depois, o preparo da massa foi ficando aos cuidados das tias, mas é importante dizer que a cozinha sempre foi um universo feminino comandado pela calma da minha vó ( o que não é muito difícil de entender já que os únicos representantes masculinos na casa eram meu vô e meu irmão e a ala feminina era composta por seis mulheres adultas mais minha pequena irmã e eu, a mais velha das crianças) Isso mesmo! Éramos 10!!
A mim, eram permitidas algumas funções naquela cozinha, coisas que fui aprendendo...
"Posso descascar as batatas?"
"É assim que se faz?"
"Não, a casca tá muito grossa! Vai cortando devagar e mais fininho";e, à medida que iam sendo descascadas, as batatas eram cortadas em pequenos cubos que eram colocados numa bacia com água até serem levadas ao cozimento.
"Assim tá bom?"
"Não, coloca mais óleo, tem que ficar cremoso" pra acertar o ponto do molho da maionese que consistia em amassar uma gema de ovo cozida com duas gemas cruas e ir acrescentando óleo Primor (lembro da lata, era retangular nas cores verde e amarelo) aos poucos, enquanto mexia sem parar. Até que finalmente se obtém um molho amarelinho claro, firme e liso que recebe um pouco de sal e umas gotas de vinagre para que se espalhe melhor quando misturado às batatas cozidas. Somente anos mais tarde, passamos a fazer o molho da maionese batido no liquidificador. Ah! A clara cozida era toda picadinha e reservada para mais tarde misturar às batatas cozidas. Nada de desperdício!
Aos poucos era introduzida na arte de bater o molho da maionese, descascar as batatas ou espalhar a massa, algumas vezes tocar a máquina ou bater o suspiro da sobremesa. Sempre com a supervisão de uma tia ou da própria vó Gelsa.
"E agora? Tá pronto?" Batia-se as claras cruas num movimento constante e firme, e tinha-se como instrumento apenas um garfo; nada de batedeira!
"Quase, é preciso bater um pouco mais, até a clara ficar bem durinha!" era a ordem para chegar ao ponto certo, depois ir acrescentando moderadamente algumas colheres de açúcar até obter aquele docinho branco como a neve, que enfeitaria as taças de gelatina. Sem esquecer o quanto era gostoso raspar, ou até mesmo lamber, as sobras... que criança não gostaria?
A sobremesa era composta de uma gostosa combinação de camadas: uma de gelatina Royal, depois um creme feito com Maizena e, por último, o suspiro que poderia estar enfeitado com pêssegos ou ameixas da Cica - tô fazendo merchandising de graça rsrsrsrs... Esse creme era feito por uma tia, já que envolvia o uso do leite fervendo; o mesmo acontecia com o molho de frango, que eu só via quando estava pronto, não era atribuição de criança mexer no fogão, fosse no fogão a gás ou no a lenha. Lembro que algumas taças de sobremesa que sobravam ficavam na cômoda do corredor e ficavam ali, atiçando nossa gula e esperando a hora certa de pedir a segunda dose, o que poderia acontecer no finalzinho da tarde ou na hora da janta.
A refeição era servida na sala de jantar, com todos sentados à mesa. Cena bonita de recordar!!Pena não ter nenhuma foto destes domingos...
Fiquei com uma vontade dessa sobremesa... hummm... que sabor de família.
ResponderExcluirPodemos fazer num domingo em que eu não tenha que seguir viagem depois do almoço hehehehe
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